AIKIDO E FAMÍLIA

Hoje, refletia sobre as diversas vezes em que mães e até mesmo esposas de alunos vieram me relatar as profundas transformações que o Aikido trouxe para suas vidas. Recordo-me, em especial, de uma mãe cujo filho era um adolescente rebelde, preguiçoso e desrespeitoso com os familiares. No entanto, após dedicar-se ao Aikido por algum tempo, ele passou a demonstrar uma postura totalmente diferente: tornou-se uma pessoa proativa, respeitosa e participativa nas atividades em família.Também ouvi relatos semelhantes de esposas sobre as mudanças positivas que o Aikido promoveu em seus maridos. Um depoimento, em particular, marcou-me profundamente: uma esposa, psicóloga, afirmou publicamente que o Aikido salvou seu casamento. Segundo ela, passaram a existir “dois maridos”: o anterior ao Aikido — ranzinza, reclamão, dono da verdade e de convivência quase insuportável — e o atual, tranquilo, harmonioso, atento e solidário.Esses relatos se repetem com frequência e sempre me trazem imensa satisfação, especialmente durante nossos encontros comemorativos, nos quais os familiares dos alunos também participam, compartilham vivências e fortalecem laços.Infelizmente, o longo período da pandemia nos afastou um pouco desses queridos companheiros de jornada no Aikido e, mais ainda, de suas famílias. Anseio pelo momento em que possamos, novamente, nos reunir e desfrutar dessa convivência tão rica e transformadora. O Aikido não se limita ao treino no tatame; ele se estende como uma experiência social profunda entre os praticantes e, sobretudo, com suas famílias.Envio a todos um abraço fraterno e caloroso.

MISOGI

“Misogi é purificação do corpo e do espirito ou purificação da energia que tudo contem.”

A prática diária do Aikido engloba diversas atividades — algumas bem visíveis, outras mais sutis —, mas todas podem ser compreendidas como Misogi, pois envolvem técnicas e procedimentos comportamentais que conduzem à purificação do corpo e do espírito.Para um entendimento mais prático, em uma visão bastante simples, costumo dizer que o Misogi é como o limpador de para-brisa de um carro: com ele, o motorista consegue enxergar melhor e, assim, escolher o melhor caminho durante a viagem.Os treinos diários (keiko) são Misogi. Cair e levantar é Misogi. Suportar e assimilar as dores de um treino é Misogi. Desfrutar da alegria de compreender uma técnica é Misogi. Enfrentar as dificuldades e os obstáculos (shugyō) do aprendizado que o Sensei, carinhosamente, nos oferece é Misogi. Limpar o tatame após o treino é Misogi. Participar da faxina do dojo também é Misogi.Podemos dizer que uma espada perfeita é forjada a partir de uma lâmina de aço que passou por diversos Misogi. O calor extremo ao qual foi submetida repetidas vezes foi Misogi. As inúmeras vezes em que foi martelada e moldada foram Misogi. Os choques térmicos necessários para atingir a têmpera adequada também foram Misogi.Se hoje temos um planeta belo e, por ora, relativamente harmonioso para desfrutar, é porque ele passou por um longo processo de purificação. Ao longo de milhões de anos, viveu um intenso conflito entre a água e o fogo. Após esse extenso “keiko” de Misogi, esses elementos alcançaram uma harmonia purificadora. Simbolicamente, representam os opostos do Yin e do Yang — negativo e positivo — que estão presentes em tudo o que compõe o universo.Se olharmos a Terra como um ser único, poderíamos dizer que, em determinado momento de sua história, ela atingiu um Satori (悟り): um estado de plena harmonia e profunda compreensão.Por fim, podemos afirmar que a prática dedicada do Aikido, vivenciada em toda a sua essência e permeada de muito Misogi, pode ser um dos caminhos para o Satori.

Uma pequena História sobre o principio Feminino

Segundo a ciência, a vida teve início na Terra há mais de três bilhões de anos, com organismos unicelulares que se reproduziam por divisão celular, sem qualquer diferenciação sexual. Durante bilhões de anos, a vida evoluiu sem a existência do masculino, em um ambiente aquático que pode ser simbolicamente compreendido como um grande útero primordial.Com a evolução das formas de vida, surgem as primeiras células com cromossomos e, mais tarde, os primeiros organismos multicelulares, nos quais aparecem os primórdios da diferenciação sexual. Somente muito depois, há cerca de 400 milhões de anos, surgem os primeiros vertebrados ovíparos e, aproximadamente 125 milhões de anos atrás, os mamíferos com uma clara distinção entre fêmeas e machos.Podemos, assim, afirmar que o princípio feminino antecede o masculino em bilhões de anos e que a própria existência do masculino dependeu da preservação e da continuidade do feminino. Ambos emergiram e se desenvolveram em simbiose, sendo nutridos no útero primitivo das águas.No entanto, os princípios feminino e masculino não se limitam aos corpos físicos. À luz da biologia, da psicologia e da filosofia, compreendemos que ambos coexistem em cada ser humano, independentemente de sua forma corporal. Um pode se manifestar de maneira mais evidente, enquanto o outro permanece latente, mas ambos estão presentes.Grande parte dos conflitos e violências relacionados às questões de gênero nasce justamente da negação dessa integração. A superação desses impasses passa, necessariamente, por uma educação baseada na ciência, no humanismo e no respeito à diversidade, capaz de formar pessoas mais conscientes e livres de preconceitos.Luz e felicidade às mulheres e aos princípios feminino e masculino que habitam em todos nós.

Saúde Pública: uma lição da pandemia e o Sistema de Universal de Saúde

A crise sanitária provocada pelo coronavírus (SARS-CoV-2) escancarou um erro grave cometido, pelo Congresso brasileiro: a retirada de verbas bilionárias do SUS por meio da PEC 95. Em um momento crítico, ficou evidente que enfraquecer o sistema público de saúde tem consequências diretas sobre a vida da população. A pandemia também revelou a fragilidade da saúde privada diante de grandes emergências sanitárias. Estruturada para o lucro e não para crises coletivas, ela não investe em infraestrutura e insumos que só seriam utilizados em situações excepcionais. Esse problema não é exclusivo do Brasil. Os Estados Unidos, mesmo sendo uma das nações mais ricas do mundo, enfrentaram enormes dificuldades justamente por não possuírem um sistema universal de saúde. Paradoxalmente, o Brasil, apesar de todas as limitações impostas ao SUS, conseguiu oferecer uma resposta relativamente melhor à sua população. Ainda assim, é evidente que, sem os cortes impostos pela PEC 95, os resultados poderiam ter sido muito mais positivos.Diante desse cenário, a conclusão é clara: é urgente defender a revogação da PEC 95 e ampliar os investimentos no SUS. Nosso sistema já é bem avaliado e, com mais recursos, pode se tornar referência internacional, aproximando-se de modelos consolidados como os da Europa. Com melhorias significativas, o SUS poderia inclusive atrair pessoas que hoje recorrem a planos privados, cada vez mais caros e inacessíveis.No período pós-pandemia, este deve ser o novo paradigma dos governos responsáveis. sejam de esquerda ou de direita: mais investimento do Estado em saúde pública, educação e pesquisa, aliado a políticas que promovam uma melhor distribuição de renda e garantam dignidade para toda a sociedade

Dificuldades geram facilidades

A filosofia oriental nos ensina que a dificuldade gera facilidade. Isso significa que são justamente as dificuldades e os obstáculos que nos fazem crescer. O oposto — a excessiva facilidade e a ausência de desafios — tende a nos conduzir à acomodação e a uma perigosa zona de conforto.Por isso, ao longo dos últimos anos, de forma quase “anedótica”, tenho desejado, em minhas mensagens de Ano Novo, que todos nós enfrentemos um pouco de dificuldade, até mesmo de “sofrimento”, como caminho para o crescimento. Costumo também alertar para que nos preparemos, pois a vida neste planeta tende a se tornar cada vez mais desafiadora. Ao revisitar mensagens antigas, percebi que já expressava essa ideia em 2016.Nesse mesmo período, tenho ressaltado que um dos grandes benefícios da prática do Aikido é o desenvolvimento da resiliência. A resiliência é a capacidade de, após uma força ou situação que nos retira do estado de normalidade, conseguirmos retornar íntegros ao nosso eixo. O bambu é um exemplo clássico: mesmo após a tempestade, ele se curva, mas retorna à sua posição original.As dificuldades que atravessamos criam oportunidades de crescimento, aprendizado e fortalecimento da nossa resiliência. Por fim, é importante lembrar que o sofrimento — ou o grau de sofrimento — é, em grande parte, construído por nós mesmos. Ele resulta da forma como vivenciamos e assimilamos os desafios que a vida nos apresenta. Está, portanto, ao nosso alcance ampliar ou reduzir esse “sofrimento”, conforme a maneira como escolhemos enfrentá-lo.

O pós Pandemia

Aprovetando o período de quarentena para pensar em um planejamento estratégico. Faço um convite para usarmos a nossa energia para planejar a vida após a quarentena — agora temos tempo para isso. Podemos planejar a vida familiar e também a nossa vida profissional: dentro da empresa em que trabalhamos, no nosso próprio negócio (se for o caso) ou, ainda, como profissionais liberais. Planejar é buscar a melhor estratégia para o futuro: fazer uma análise do que está por vir e agir com mais consciência. É importante levar em conta, nesse planejamento, o fato de que o mundo não será o mesmo após essa pandemia. Muitos cientistas e pensadores apontam para um cenário diferente: haverá um mundo “antes” e um mundo “depois” desse desastre global. Portanto, devemos considerar também essa mudança drástica. Haverá transformações sociais profundas, mudanças nos valores e nas prioridades das pessoas e dos governos. E esses governos terão de repensar como será o mundo daqui para a frente. Uma coisa que já se percebe é que o mundo inteiro precisará rever seus sistemas de saúde, observando os países que têm apresentado melhor desempenho. O futuro tende a mostrar que os países com sistemas públicos, universais e bem estruturados respondem com mais eficiência em momentos como este. O lockdown mundial também está mostrando como o planeta pode respirar melhor sem a poluição diária que produzimos. E está evidenciando a irracionalidade da concentração monetária exagerada nas mãos de poucos, muitas vezes sem empatia e sem um mínimo de humanidade, pensando apenas no lucro. Vamos refletir sobre esses fatos, analisar com cuidado e planejar nossa vida e nosso futuro daqui pra frente — esse é o pensamento de hoje. Fiquem em paz em seus lares. Alimentem-se bem, mas com moderação: lembrem que o importante é a qualidade, e não a quantidade. E, além da comida, procurem se alimentar de bons pensamentos, bons exercícios respiratórios e boas noites de sono. Assim, teremos um sistema imunológico mais forte.

Fiquem em paz

O EFEITO MANADA

O EFEITO MANADA E OS PERIGOS SOCIAIS EM UMA GRANDE CRISE.

A corrida mundial pelo papel higiênico é um exemplo claro do chamado efeito manada. A partir de uma fake news, imagens e informações foram replicadas pelas mídias e redes sociais, levando pessoas a agir sem reflexão, apenas por impulso.Esse comportamento revela algo importante: apesar de todo o avanço científico e tecnológico, ainda carregamos instintos primitivos. Em momentos de crise, o medo pode facilmente dominar, levando à perda de valores, de equilíbrio e de consciência coletiva.Diante disso, fica um alerta. Em tempos de incerteza e possível caos, a diferença é feita por quem mantém o centramento, a lucidez e o controle emocional. A história mostra que, mesmo nas situações mais extremas, aqueles que preservaram o equilíbrio foram capazes de conduzir a si mesmos — e aos outros — com segurança.Este é o momento de colocarmos em prática os princípios do Aikido:respiração consciente, presença, foco e antecipação.Combata o pânico com calma.Não se deixe levar pelo medo coletivo.Seja o ponto de equilíbrio no meio da tempestade.Ganbatte kudasai.

R. Vargas

IDIOSSINCRASIA GRUPAL E O AIKIDO

A idiossincrasia de um grupo se constrói através do tempo?

Alguns elementos que compõem esta construção, se alicerçam nos valores, objetivos e crenças, que formam com o passar do tempo, um consciente coletivo, reforçados pela valorização histórica de seu passado, deixando através de um trabalho interno de seus membros, a memória de seus antepassados e suas realizações, a valorização até um certo ponto mítica, de seus alicerces são partes da história e da identidade dos grupos e estes devem estar sempre presentes na mente dos membros do grupo.

No caso do grande grupo dos praticantes de Aikido, no plano mundial, a permanente divulgação sobre os primórdios do Aikido tem se dado através de livros, vídeos e pela dedicação daqueles Senseis e Shihans no mundo todo que permanentemente vem divulgando este legado, tanto aos seus discípulos como ao público em geral, seja através de verbalizações “in person” ou através da internet.  Em grupos “menores”, como organizações e Dojos filiados ou vinculados ao Hombu Dojo(Japão), a divulgação e valorização desses elementos devem ser trabalhados e exercidos, necessariamente por todos, incluindo os instrutores e senseis, além de eventualmente todos os praticantes mais antigos, vem divulgando seguidamente, valores e fatos históricos da organização, que não devem nunca ser esquecidos por todos nós.

Ao escrever este texto me veio à lembrança de um elemento importante do caráter do Shihan Kawai: a bondade e a capacidade de perdoar seus desafetos. Por ser um líder forte, determinado e com muitas responsabilidades, muitas vezes algumas pessoas levavam algumas de suas decisões para o terreno pessoal. Hoje, aos quase 70 anos, vislumbro como é complexo lidar com os nossos semelhantes dentro de um grupo ou organização e vejo que um dos motivos para isso é que as pessoas se sentem incomodadas e desconfortáveis é por que pensam e avaliam os acontecimentos, do grupo ou organização, sem ter uma visão do todo de toda a sua idiossincrasia, numa comparação simplista, seria como um paciente que não tem todas as informações, objetivas, subjetivas e interações complexas de seu tratamento e fica desgostoso com o seu médico, por não entender o tratamento a que está sendo submetido, claro que por mais que ele seja informado, nunca vai ter a mesma visão e entendimento que o médico, mas não resta dúvida de que quanto mais dermos informações a ele, mais próximo ele estará de uma situação onde dificilmente haverá algum grave desconforto ou contrariedade em relação ao que o terapeuta lhe recomendou. No caso de um grupo ou organização esta função de disseminar as informações que ajudaram a formar essa percepção idiossincrática é daqueles membros mais antigos que tem um viés de formador de opinião, nossos “apóstolos”. Mas ser um disseminador de todos estes elementos dentro de um grupo traz muitas responsabilidades, como veremos a seguir.

Os perigos inerentes na formação da idiossincrasia de grupo.

Em um experimento dos anos 50, muito comentado no meio acadêmico, cientistas comportamentais americanos levaram para um acampamento, em uma ilha, adolescentes que se viam pela primeira vez. Ao desembarcarem foi distribuído a cada adolescente de uma forma aleatória, uma camiseta de cor azul ou vermelha, de forma que ficaram todos inseridos e identificados como participantes de um dos dois grupos. daquele momento em diante todas as atividades dos grupos eram feitas em separado e comiam em horários diferentes, dormiam em alojamentos distintos e nas brincadeiras, jogos e práticas esportivas, formavam equipes adversárias. 

O experimento teve que ser interrompido antes da “deadline” determinada, em função de as disputas em jogos terem se tornado violentas e com brigas despropositadas entre os Azuis e Vermelhos. Vale lembrar que nos anos seguintes diversos outros experimentos confirmaram esse fenômeno. Após um longo tempo de estudos têm surgido diversas teorias tentando explicar as origens do fenômeno, algumas no campo da Sociologia outras no campo da Antropologia, mas de alguma forma todas remetem a um sentimento, talvez atávico, de proteção e preservação, e desta maneira começa a brotar a falsa percepção de que tudo que tem em nosso grupo é melhor e mais valioso do que o outro ou os outros de modo geral. Este mecanismo foi muito valioso e benéfico, para a nossa espécie, num passado não muito distante, foi valioso e benéfico para a sobrevivência de diversos grupos humanos e pré-humanos, assim como tem sido também para diversos grupos animais que vivem em bandos. Mas no atual momento de nossa “evolução”, cabe uma pergunta este fenômeno ou mecanismo assim como está registrado em nossa herança primal, é benéfico ou maléfico?

Penso ser maléfico na medida em que ele de alguma forma toma corpo nos nossos comportamentos grupais destrutivos em disputas entre grupos radicais de torcedores clubísticos, grupos religiosos, raciais, políticos e outros grupos que se formam e hão de se formar no futuro, isto não quer dizer que nestes grupos nominados sempre vá haver uma tendência  a violência, mas é onde históricamente, eles mais se manifestam, a história recente de nosso País e de alguns outros demonstra cabalmente esse pensamento.

Mas por outro lado é benéfico por oportunizar ao homem realizar diversos feitos que levaram a uma excepcional melhora na qualidade de vida do ser humano, se analisarmos toda a trajetória histórica da humanidade sobre a terra, os grandes avanços sempre foram conseguidos através do esforço e trabalho de grupos, isto se vê na ciência, por exemplo, desde a criação da lâmpada, que não foi a criação de apenas um homem, mas o trabalho de um grupo em função de uma ideia, passando pela criação da primeira “máquina  computacional” moderna, Colossus, que daria início e sentido para os computadores modernos, trabalho que foi realizado por Alan Turing em conjunto com um grupo de cientistas com o intuito de decifrar os códigos secretos criados pela máquina enigma da Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, e ainda passando pelas grandes conquistas espaciais de Americanos e Soviéticos levadas a cabo sempre por grupos de homens que se engajaram com dedicação total a uma causa, até um dos últimos grandes feitos que foi o sequenciamento do Genoma Humano, que só foi possível após um um monumental projeto de trabalho grupal, conhecido como Projeto Genoma Humano (PGH), que durou 13 anos, o PGH foi composto por 17 países que iniciaram programas de pesquisas sobre o genoma humano. Os maiores programas foram realizados na Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, República Popular da China, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, México, Países Baixos, Reino Unido, Rússia e Suécia e outros países com menor participação.

Como vimos cabe a cada um de nós fazer o melhor uso desse poder inerente ao ser que é o de formar grupos. Talvez um remédio para quando estivermos em dúvida quanto a entrar na ’’onda’’ seria nos fazermos perguntas do tipo; Isto está em acordo com os meus valores? Isto é realmente uma vontade minha ou do grupo? Devemos fazer melhor uso de nossa consciência.

Cabe aqui também a pergunta, que tipo de grupo vamos escolher participar e se associar, a grupos maléficos ou benéficos? Mas aqui cabe outro questionamento, como identificar se um grupo é benéfico ou maléfico?

Para isso poderíamos nos fazer algumas perguntas esclarecedoras: 

  1. Os objetivos do grupo levam a valores como respeito a vida como um todo sem distinção de idade cor, religião ou qualquer outro tipo de segregação?
  2. As ferramentas e meios para atingir os objetivos do grupo respeitam a integridade e  a individualidade dos que não fazem parte do grupo?
  3. Os valores do grupo vão ao encontro dos meus?

Pensem sobre isso, estou a disposição para troca de idéias em vargas.aikido@gmail.com


R. Vargas

Vargas Aikido

INSBRAI

AGORA OU NUNCA MAIS

 

 

O povo Japonês tem a cultura de criar frases(yojijukugo) que sintetizam profundamente idéias e sentimentos filosóficos e culturais, fazem isto reunindo alguns ideogramas que tornam possível divulgar estes conhecimentos. Um exemplo significativo é a expressão “ichi go ichi e”, que transmite um ideal estético ligado aos conceitos zen-budistas e à consciência da impermanência de tudo que existe, e que por isto todos os instantes devem ser valorizados, principalmente os momentos que estamos com outras pessoas, seja um simples encontro, uma reunião familiar ou de negócios ou ainda um keiko(treinamento) de artes marciais  Esta expressão vem sendo interpretada de diversas formas, ao longo dos séculos, aqui vou citar duas “uma vez um encontro” e “agora ou nunca mais”. A primeira vez que tive contato com este provérbio Japonês, foi em Hiroshima num encontro com meu grande amigo Narita Sensei, quando ele olhou para o cèu, apontou para umas nuvens que estavam acima de nós e disse “este céu que está agora acima de nós dois jamais se repetirá” e pronunciou, “Ichi go ichi e”  

 

Apesar de já ter sido analisada exaustivamente sob a ótica do Chanoyu ou Chá-Do (Cerimônia do Chá) do Shodo(Caligrafia), Sumie e tantas outras, vamos tentar olhar este conhecimento, especialmente sobre a ótica das artes marciais.

No ambiente marcial, a importância do Ichi-go ichi-e aparece em vários momentos. Por exemplo, quando se reforça a idéia de que não existe um Keiko igual a outro; por tanto, se o aluno não compareceu a um determinado treinamento, aquele especificamente, nunca mais vai se repetir. As oportunidades de aprendizado, as interações que poderia ter tido com os colegas, os insights, tudo daqueles momentos foi perdido, não existe “vídeo tape” ou qualquer tipo de resgate tecnológico que nos propicie resgatar as vivências e experiências que poderíamos ter absorvido daquele treinamento. Como diria uma verdade Universal: “Você nunca pode se banhar na mesma água do rio, pois ela nunca é a mesma”. O rio da Vida não pára, está em eterna mudança. Como diz a tradição budista, “só existe uma coisa que podemos ter certeza no universo, é a eterna mudança, a impermanência, tudo no universo está sempre em eterna e permanente mudança, desde a partícula mais minúscula e simples até os organismos mais complexos como nós seres humanos. Tanto a pessoa com que você se relacionou ontem, como você mesmo, hoje não são mais os mesmos, seja em termos físicos ou aspectos psico-sociais, a sociedade, a família, os amigos, ou até a mídia, estão sempre exercendo alguma influência sobre o  nosso nível de consciência, nossa capacidade de empatia, estamos a todo o instante sofrendo influências do meio, sejam elas influências físicas, sejam influências psicológicas. Quanto mais caminharmos nessa linha de vislumbramento, mais vamos tomar consciência do valor e da importância de valorizar o presente.

Outro exemplo bem palpável está na prática das técnicas, dos Katas ou Katis. Dependendo da arte praticada, cada técnica que executarmos será única, terá os seus detalhes, as suas nuances; mesmo se pegarmos a mesma técnica como exemplo, podemos executá-la 5.000 vezes, nas 5.000 vezes ela vai ser diferente, nunca será igual. Por isso, e principalmente por isso, devemos tratar com reverência, respeito e atenção total ao momento de cada execução de técnica ou movimento, pois ela é única. Nunca se repetirá, pois sempre trará algo diferente.

O mais extraordinário, é que podemos levar este aprendizado e esta consciência a todas as nossas relações com o mundo. É assustador, mas ao mesmo tempo mágico, despertarmos para a consciência de que todos os instantes são únicos. Isto vale para as oportunidades que temos e que perdemos na vida. Tem uma expressão da cultura Gaúcha que diz: “O Cavalo encilhado só passa uma vez”. As oportunidades são raras e devem ser aproveitadas.

A percepção desta verdade universal, de que estamos sempre em eterna mudança, me faz lembrar as palavras de um pensador hindu chamado Krishamurti, por um outro viès ele nos diz que devemos sempre olhar tudo como se fosse a primeira vez e isto vale para qualquer coisa, desde uma simples pedra, uma planta, até uma pessoa. Assim ele disse: O pensamento construiu estes símbolos, imagens, ideias. Posso eu olhar, primeiro, a árvore, a flor, o céu, a nuvem, sem uma imagem? A imagem da árvore é a palavra que aprendi dando certo nome à árvore, diz sua espécie e lembra sua beleza. Posso olhar àquela árvore, àquela nuvem, àquela flor, sem pensamento, sem a imagem? Isso é bem fácil de fazer, se você já fez. Mas posso eu olhar sem imagem para um ser humano do qual sou íntimo, que considero como esposa, marido, filho? Se não posso, não existe relação verdadeira: a única relação é entre as imagens que nós dois temos.”  e ainda mais; “Embora você tenha me insultado, embora tenha me ferido, embora tenha dito coisas sórdidas sobre mim ou me elogiado, posso olhar para você sem a imagem ou a memória do que você me fez ou me disse?  Vejam a importância disto, pois apenas uma mente que retém as memórias de ferida, de insulto, está pronta para perdoar se ela tem essa inclinação de fato. A mente que não fica armazenando seus insultos, os elogios que recebe, não tem nada para perdoar ou não perdoar; e, assim, não há conflito.”
Numa tentativa de facilitar o nosso entendimento e evitar uma censura de nosso ego, ele cita o exemplo de uma Flor: Devemos olhar a flor como se fosse a primeira vez que a víssemos e não deveríamos nomina-la, por exemplo, olhar sem pensar isto é uma Rosa ou isto é tal coisa, por que ao fazermos isso estaremos trazendo para o presente todas as definições imagens e conceitos que temos sobre aquela planta, aquele objeto ou até àquela pessoa. Pelo que tenho percebido pela minha experiência é mais complicado exercitar isso nas nossas relações com pessoas, do que com aqueles que não são “iguais” a nós, talvez por isto Krishnamurthi começa com o exemplo da flor. Quando olhamos para uma pessoa, ao vincular-mos ela a um nome, trazemos àquele momento todas as lembranças, conceitos e pré-conceitos que temos dela

 

Para ter um novo tipo de consciência e de comportamento, devemos cultivar hábitos que transformem nossa relação com o mundo um destes é cultivar a atenção total ao presente, estar presente com todos os nossos sentidos, visão, audição, olfato, aliados à nossa percepção dos outros, com sensitividade e empatia.

 

Na prática do Aikido encontramos vários ensinamentos para a vida, as grandes oportunidades de nos tornarmos cada vez melhor surgem a todo o momento durante uma prática psicomotora, carregada de filosofia, como a do Aikido. Desde coisas mais óbvias, como não responder uma agressão com outra agressão, até as mais sutis como a prática da gratidão (GIRI), por isso cada treinamento é também uma oportunidade de crescimento como ser humano. Tudo que se pratica e se desenvolve dentro do tatame pode e deve ser levado para fora do Dojo. Para nosso melhor convívio social, com nossos semelhantes, com os outros animais e a natureza em geral.

 

Estas colocações me fazem lembrar das inúmeras vezes em que o seito (aluno), interrompe uma técnica no meio, porque acha que não está correta, então para e tenta começar tudo novamente. Esta é uma atitude equivocada, por vários motivos: primeiro, porque o praticante deve se habituar a fazer o movimento até o fim, pois numa situação real não haverá oportunidade de refazer o movimento, sendo uma questão de “agora ou nunca mais”; segundo, porque durante o treinamento o erro faz parte do aprendizado. O erro não deve ser execrado, ele é nosso professor, nós aprendemos com os erros, olhando eles de frente e tendo consciência deles é que vamos crescer, se o ignorarmos e o colocarmos “para baixo do tapete”, jamais cresceremos.

Não deixemos para depois. Vamos viver totalmente o presente, viver como se não existisse uma segunda chance, “agora ou nunca mais” ICHI GO ICHI E.

DESEJOS DE FELICIDADES

O ato de escrever para um grande amigo que me desejou felicidades neste Natal(?) e no ano que se aproxima, me inspirou a escrever a todos os amigos, alunos e pessoas com que compartilho ou já compartilhei, de alguma forma, o meu viver neste espaço/tempo que é o nosso mundo atual. Não vou desejar felicidades para vocês. Por quê? Porque tenho certeza que vocês, assim como eu e meu amigo, já perceberam, que a felicidade depende apenas de nós mesmos e, mais do que isso, depende de onde colocamos nossos valores, nossas metas.

Nossa felicidade sempre vai depender de nossas escolhas. De nossas escolhas de hoje, dependerá a nossa felicidade de amanhã, assim como o grau de felicidade que temos hoje foi determinado pelo que fizemos ou deixamos de fazer ontem, ela estará, indubitavelmente, interligada com a qualidade de nossas escolhas de ontem. Se colocamos nossos valores e nossas metas em “ter coisas” materiais e externas, facilmente conseguiremos, a médio e longo prazo, aumentar nossas chances de sermos infelizes, por outro lado se colocarmos o nosso foco em valores e metas interiores, criando hábitos que nos tragam mais saúde física, emocional e espiritual, com certeza estaremos investindo em felicidade. Todos os caminhos do conhecimento humano, nos indicam uma direção muito clara, que as vezes não percebemos por que estamos cegos pela ânsia de “ter coisas”.

A verdadeira felicidade não está no Shopping. Ela está em lugares que não precisamos ir de carro, pagar estacionamento e nem impostos, ela está dentro de nós, em nossa mente, ou, simbolicamente, em nosso coração, onde habita o nosso SER. Tanto a ciência, como a filosofia e os grandes movimentos espirituais, nos indicam “coisas imateriais”, que podemos “fabricar” dentro de nós através da criação de HÁBITOS transformadores.

HÁBITOS TRANSFORMADORES:

Perdão: Perdoar liberta, liberta seu “coração”, liberta sua energia mental e emocional, liberta seus sonhos, te liberta daquele ou daquilo que te machucou…

Gentileza: Ter um sorriso verdadeiro e expressar interesse e preocupação com as necessidades dos outros, melhora a nossa resiliência emocional e reduz a nossa tendência à depressão e à ansiedade, tornando nossas relações mais pró-ativas e verdadeiras

Respeito ecológico: “Por onde você passar, seja onde for e como encontrar, quando sair procure deixar melhor, nunca pior do que quando chegou”

Gratidão: Desenvolver o hábito da gratidão nos aproxima da percepção de totalidade, de que somos parte de tudo que nos cerca.

Pense coletivamente, o mundo já está cheio de individualidades: “Sozinho eu vou mais rápido, mas quando chego estou só. Quando em grupo, vamos talvez, mais lento, mas vamos mais longe e quando chegamos temos a companhia daqueles que nos acompanharam no trajeto.”

Pensem nisto e Boas Festas