FAZ, NÃO FALA

Escrever sobre pessoas que já não estão entre nós, sempre é uma tarefa trabalhosa. Mas temos que, ao mesmo tempo, compreender que existem pessoas que são eternas, sempre estarão em nossa lembrança e temos a obrigação de não deixar que as próximas gerações esqueçam este tipo especial de pessoa. Posso dizer que Kawai Shihan está entre estes. Um espírito diferente, incomparável, a dificuldade de encontrar um gabarito ou um tipo de termômetro com que possamos medir a existência dele ou de encontrar adjetivos onde enquadrá-lo, já nos dá a estatura e uma pálida dimensão de quem ele “É”. Não, este “é” não deve ser visto como um erro do autor, eu digo que ele é, por que o legado e as histórias que retratam o convívio com ele, jamais poderam ser esquecidos. Ele continuará sempre entre nós, seus filhos, os Aikidoistas do Brasil.

Kawai Shihan, nunca se interessou em aprender o nosso idioma, falava uma linguagem própria, sem verbos de ligação, preposições, artigos definidos ou indefinidos, etc. Mas em poucas palavras dizia muito e conseguia passar mensagens de profundo significado, tanto em termos filosóficos, quanto em termos de técnicas de Aikido, dois exemplos bem singelos das palavras de Kawai Shihan estão em duas frases lapidares. “Faz, não fala” e “Força, tira” e quase sempre após este tipo de frase, complementava com um “faz favor” o que denotava a sua gentileza, pois ele era firme mas gentil, firme como um Katana, mas ao mesmo tempo, suave como um Bambu.

Faz não fala: Significados iguais a esta frase, encontramos em diversas religiões e caminhos filosóficos, em nosso mundo. Podemos comparar com “quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mateus 6). Bruno Espinelli: “ Por que falar é facil, mas fazer o que fala é tão dificil? se não for fazer não fale!”. Confúcio; “Aja antes de falar, portanto, só fale de acordo com seus atos.” Como vemos Kawai shihan estava bem acompanhado em sua visão de vida. Um causo: Certa vez eu estava no Dojo do Shihan, em um dia festivo em que iria acontecer um evento tradicional, a clínica de acupuntura, onde ele atendia e morava era no outro lado da rua, ele atravessou a rua e entrou no Dojo, para ver como estavam os visitantes que vinham de várias partes do Brasil e de outros países da América do Sul, quando ele entrou viu um rapaz varrendo as arquibancadas e os degraus da entrada e outros varrendo o Tatame e então falou bem alto “Konitchi wa, pessoas bonitas, trabalho bonito”. Nisto o rapaz que estava varrendo se aproximou dele com a vassoura na mão e disse “Shihan, estou varrendo o Dojo, vou varrer tudo aqui”, no que Kawai deu uma leve parada no seu caminhar e disse “FAZ, NÃO FALA, FAZ FAVOR”, e continuou a sua caminhada para dentro do Dojo, o rapaz perdeu uma bela oportunidade de permanecer calado, mas, por outro lado, talvez tenha aprendido uma grande lição.

Força, tira: Após algumas dezenas de anos de prática de Aikido, algumas pessoas começam a perceber a importância de estar relaxado para a execução das técnicas, ganhando em agilidade, explosão do movimento e habilidade de trabalhar com o Ki e como o estar tenso ou fazendo força muscular constante, nos tolhe o movimento, nos bloqueia e atrapalha o fluxo da energia. Todas as pessoas que presenciaram ao vivo como Kawai Shihan projetava dezenas de pessoas, num espaço de tempo de 10, 15 minutos, com o mínimo de esforço e sem cansar, jamais esqueceram e ,também, quando convidava qualquer pessoa para tentar segurá-lo e ele conseguia, facilmente, se desvencilhar e projetar estas pessoas com um mínimo de esforço, apenas com a respiração. Lembro também de uma demonstração que ele fazia, pedindo para uma pessoa estender o braço para a frente e tentar manter o braço esticado, então ele pegava um Shinai, espada de bambu usada no Kendo, e aplicava sobre o antebraço desta pessoa, uma pancada com um movimento de bastante vigor e força, apesar da dor da pancada a pessoa conseguia resistir, depois ele repetia o mesmo movimento com o Shinai no mesmo local, só que desta vez sem força, só com a energia e a respiração certa, a pessoa, instantaneamente, desabava no chão. Eu poderia ficar escrevendo durante muito tempo sobre outros preciosos momentos onde o poder do “FORÇA, TIRA”, estava presente.

A força da personalidade do nosso Shihan era tão marcante e envolvente, que 90% das pessoas que foram Uchi Deshi(Discípulo interno) dele adquiriram de alguma forma, este dialeto dele, esta particular maneira de falar, não sei se por admiração ou se por um mimetismo ou para facilitar a sintonia ou tudo isto junto e mais alguma coisa, não sei, não cabe a mim julgar o porque disto. No início eu achava engraçado e às vezes até um despropósito, mas com o passar de décadas, fui percebendo que isto tinha um significado muito mais profundo, que só quem conviveu anos como Uchi Deshi, ou algumas dezenas de anos como discípulo dele, é que tem condições de realmente compreender tudo isto, que a meu ver se resume em uma sintonia de espíritos que desenvolvem e trabalham com o desenvolvimento e o desabrochar desta energia que os Japoneses chamam de KI, os Chineses de CHI, os Indus de Prana ou se quisermos simplificar e modernizar podemos chamar de ENERGIA UNIVERSAL ou ENERGIA QUANTICA

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