Lembranças

 

Não sei bem por que, mas sempre tive uma fascinação por desmontar coisas. No início estraguei  alguns relógios, despertadores e outros objetos domésticos para ver como funcionavam e acredito que uma consequência ou talvez causa desta curiosidade foi o fato de adquirir uma ótima visão espacial que me facilitou a trabalhar com meu Avô na sua oficina de maquinas de escritório, maquinas de datilografia e antigas máquinas eletromecânicas de calcular, em algum momento nos anos 70. Acredito também, que o fato de ter desenvolvido uma boa visão espacial, ou talvez, ja ter nascido com ela, ajudou a compreender a mecânica dos movimento nas artes marciais, me levando também a outras atividades psicomotoras como o Yoga e terapias alternativas em que se tornava importante tal qualidade.

Desde os oito anos já havia se manifestado outro elemento que hoje parece fazer parte da minha personalidade, aquilo que modernamente chamam de veia “empreendedora”, pois “aquele piá de calças curtas” juntava em casa jornais velhos, garrafas e metais para vender a um carroceiro que passava pelas ruas do IAPI gritando “Compro jornais, vidros e ferro-velho!!” colocando todos os itens que eu havia juntado e pesava em uma balança de latão que hoje só se vê em antiquários. Mais alguns anos e outra fonte de renda surgiu quando, aos domingos que me eram livres, ia engraxar sapatos no estádio do Zequinha (sede do Esporte Clube São José de Porto Alegre). Isto era muito divertido, ao mesmo tempo que trabalhava fazia algo aliado a uma certa adrenalina, por que tinha que entrar no estadio sem pagar, pulando a cerca ou achando uma maneira de enganar os “guardas”, estas peraltices dariam muitas estorias. Sempre quis ganhar meu sustento fazendo algo que gostava e que fosse prazeroso.

Meu Pai foi líder sindical numa época difícil que durou do inicio dos anos 50 até o meio da década de 70, período de muita perseguição política. Ele foi preso várias vezes sendo a primeira nos anos 50 quando o Presidente Getúlio suicidou-se e alguém tinha que pagar o “Pato”, época que se iniciou uma série de perseguições políticas. Quando ele não estava preso, estava viajando, participando de reuniões sindicais e participando de manifestações e reuniões, sempre apoiando ações em benefício dos trabalhadores e dos necessitados. Era um idealista, sempre preocupado com as condições de miserabilidade do Povo, ainda que com tamanha dedicação sua própria família estivesse passando por necessidades financeiras.

Quando tinha 13 anos, a única renda fixa familiar era o pequeno  salário de minha mãe, escriturária da Secretaria do Trabalho. Como estávamos com dificuldades financeiras, fui trabalhar no IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) como Office-Boy (Mensageiro), eis que naquela época a legislação permitia um adolescente trabalhar com tal idade, nesta época, em função do trabalho, tive que estudar à noite. Está foi uma das poucas vezes em toda a minha vida trabalhei como empregado, 90% do tempo, meu sustento veio de atividades autônomas  e em alguns períodos com mais de um empreendimento ao mesmo tempo. Durante muitos anos trabalhei com terapias alternativas como Shiatsu, Reflexologia e Bioenergética, paralelamente dando  aulas de Judo e administrando uma loja na Assis Brasil onde criei um sistema de trocas de mercadorias onde a ideia era “troque o que você tem e não precisa, pelo que você não tem, mas precisa”. O nome da Loja era ESCAMBIO, inspirada no primeiro tipo de comércio que a humanidade conheceu, o Escambo (trocas). Ainda fui proprietário de uma Serralheria e outras atividades menos significativas.

Comecei a lembrar destes fatos em função de uma noticia que li onde relatava um estudo feito com uma série de artistas e esportistas em uma faixa de idade entre 06 e 38 anos, concluindo que crianças que tiveram autonomia para escolher o que estudar ou praticar (na pesquisa falava em tocar algum instrumento musical, mas é válido para esporte ou profissão) que não fosse uma “obrigação” ou tivesse como motivação satisfazer os desejos de algum dos Pais, tiveram melhor progresso e melhor desenvolvimento cognitivo.

Esta leitura me fez recordar a Mãe maravilhosa que eu e meu irmão tivemos na nossa infância e adolescência, por ter sempre, na medida do possível, nos deixado à vontade e com uma certa autonomia  (aturando inclusive os ensaio, em nossa casa no IAPI da “Banda no estilo Beatles” que criamos por volta dos 15 anos chamada “Os Tímidos”). Dona Hirma ainda foi condescendente com os meus precoces “delírios” de Filosofia Oriental,  Yoga, Terapias alternativas e Artes Marciais (desde os 13 anos já praticava Judo). O quadro não estaria completo sem a participação de meu irmão com suas experiências de Professor Pardal elê estudava na Escola Técnica Parobé e sempre vinha para casa com novidades que tentávamos por em prática, lembro de um a Galena que foi construída em um quartinho que tínhamos no pátio da casa (um depósito na verdade), nele realizávamos algumas experiências “cientificas”. Uma vez quase botamos fogo no Contador(Relógio) de Luz fazendo uma experiência de criar um Arco Voltaico com grafite, um mini aparelho de solda, potencialmente perigoso.

Voltando ao estudo mencionado mais acima, este se baseou no que especialistas chamam de autonomia – fazer algo por seus próprios valores e crenças e não pelos dos outros.  Revendo minha experiência de vida, não tenho como não concordar que Pais controladores fazem com que seus filhos não tenham autonomia, forçando a fazer atividades das quais não gostam e não curtem.

Felizmente minha mãe não era do tipo controladora e meu pai não era do tipo que impõe o desejo de que seus filhos sejam uma continuação de si mesmo, nem tentava fazer com que os filhos realizem aquilo que não conseguiram realizar. Meu Pai, no pouco tempo que estava em casa, não chegava a interferir relevantemente em nosso dia a dia.

Os Pais e Mães que tentam direcionar os filhos em função de seus gostos e desgostos, o fazem muitas vezes por uma equivocada ideia de amor. Isto, infelizmente, não é amor, pois o amor liberta.

A atitude controladora de alguns Pais, hoje alavancada por uma ansiedade e um desejo doentio de que o filho seja um sucesso (seja lá o que isto represente) tem levado seus filhos cada vez mais aos analistas ou aos braços de algum Guru salvador. Confundem felicidade com sucesso, pensando que o sucesso financeiro ou outro qualquer os levará à felicidade. Talvez muito tarde vão descobrir que a felicidade não vem de coisas externas, dos bens materiais ou dos títulos conquistados. Ela vem de tesouros que estão o tempo todo no interior de cada um, esperando para ser trabalhado e trazido à luz da consciência, desabrochando valores e sentimentos positivos como honradez, compaixão e um sincero sentimento de ser útil ao próximo e ao “meio”, que é o verdadeiro sentido de nossa existência.  

Até breve

 

 

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